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segunda-feira, abril 25, 2011

Dia que nunca vivi

Imagens a preto e branco passam-me pelo espectro visual. Fotografias monocromáticas onde reconheço um Heroi que nunca pude tocar.
"Quis saber quem sou..."

Repentinamente, desejo ser tão mais velho que o meu avô. Saber e conhecer aquilo que só a idade e a experiência trazem.

As lágrimas afloram-se-me nos olhos, como que num tributo a todos aqueles que me permitiram ter a Liberdade que hoje tenho.

Sinto inveja de todos aqueles que viveram este dia no seu verdadeiro significado e "in loco". Tenho inveja de todos aqueles que à 37 anos atrás viveram aquilo que eu nunca poderei almejar nos mesmos termos.
Tenho maior inveja de todos aqueles que abraçaram e saudaram um Homem que aos 29 anos de idade mudou um país e que nunca se serviu desse feito para alcançar regalias ou favores.

"Grandola Vila Morena"..."o Povo é quem mais ordena"...

Hoje relembro a vontade de toda uma sociedade, de todo um país, encabeçada por um punhado de militares, de Heróis, que em menos de 24 horas mudaram as regras de um "jogo" que durava à mais de 4 décadas.

Hoje tenho saudades de um Dia que nunca vivi.

domingo, março 13, 2011

O Povo à Rasca

Saio de Santa Apolónia e o céu saúda-me com um calor ao qual não estou habituado, nesta altura do ano. As pombas dizem "Olá" com aquele seu ar de quem espera algo em troca.
Apesar das nuvens volumosas e cinzentas, o chapéu-de-chuva viria a revelar-se apenas um fardo.

A cidade apresenta-se como é habitual. Turistas com canhões fotográficos em punho tentam captar a centelha lisboeta em cada traço de Alfama, sem saberem o que se iria passar daí a poucas horas.
Ouço uma rapariga, que caminhava a trás de mim, perguntar à amiga "A que horas começa?", "Às 3 na avenida da Liberdade". Sorrio. Serão mais duas entre os milhares, assim como eu. Não vou ser mais um com a típica conversa de café sobre o estado do país, daqueles que quando lhes compete fazer um pouco para o mudar deixam-se ficar no sofá ou em qualquer tasca a ver pela tv, apoiados por uma torrente de desculpas que faria qualquer tempestade parecer um choro de menino.



Passo pelo Chiado. Na perpendicular junto à Bertrand organiza-se mais uma feira de alfarrabistas, molestada apenas pelos raros aguaceiros que se fazem sentir.
Cruzo-me com pedintes, mendigos e velhos loucos, mas também com donos de audis, porsches e até lamborghinis de ultimo modelo. Engraçado, tão distantes uma da outra, mas nenhuma destas duas classes sociais se vai apresentar na manifestação.
Deixo para trás a estátua do príncipe da nossa poesia em direcção a um outro mais Real.
Enquanto passeio pelo bairro mais alto, olho para o chão e as frestas entre os paralelos mostram-me os artefactos de noites passadas onde os problemas do dia de hoje foram momentaneamente esquecidos.
Chego ao jardim e distribuo o peso da mochila por outras partes do corpo. As pombas olham-me agora com mais interesse, pretendem mostrar-me que merecem umas quantas migalhas bónus pela sua falsa amizade. É incrível o quanto as pombas e os seres humanos têm de comum.

Depois da merenda, vou andando vagarosamente para o ponto quente do mapa, qual campónio moderno vagueando por Lisboa. Ao passar pelo café Nicola apercebo-me de um grupo de neo-nazis, de t-shirts estampadas com o símbolo das SS, a fronha do Hitler ou do Rudolf Hess. Pobre mentecaptos. Felizmente não os voltarei a ver durante todo o dia, pois a manifestação será de todas as cores, literalmente.



A policia e a RTP concentram-se nas traseiras do teatro D.Maria II. Teriam eles previsto a dimensão da manifestação? Não creio, não haviam policia suficiente nem para 100 mil pessoas, quanto mais para o dobro. Grupos começam a viajar pela avenida a cima, em direcção ao São Jorge. Pelo caminho encontro caras conhecidas.
Quando chego já há vários milhares de pessoas, mas a quantidade de gente que chega parece não ter fim. Rapidamente deixa de se conseguir perceber onde realmente começa e onde acaba a manifestação.

Os motivos de luta são tão variados quanto os erros deste nosso país. Os estandartes fazem-se de todas as cores. São ocidentais, africanos, orientais, novos, muito novos e velhos, heterossexuais e homossexuais, sindicalistas e anarquistas. Não vejo qualquer bandeira de partidos e nem sinais da policia. Vejo sim muitos que vieram só para ver a "banda passar", o velho hábito de adoração, qual acidente na auto-estrada.



A marcha faz-se por entre frases que recordam o dia, que à quase 37 anos atrás derrubou o Estado Novo. 200 mil pessoas manifestam-se agora, com poucos cravos e com nenhum capitão, por um novo estado do país.
Como galvanizadores do Povo, os Homens da Luta, Vitorino, Rui Veloso, Fernando Tordo e outros vão fazendo-se ouvir através de megafones e colunas. Passando vagarosamente pela multidão, vão através da ironia e da canção relembrando o motivo pelo qual todos estamos ali. Já basta de tanta inevitável degradação de todos os sectores mais importantes do funcionamento da nossa sociedade!
2 horas depois chega-se ao Rossio e tanto a Praça da Figueira como a D. Pedro IV estão à pinha, bem como a Praça de Camões.

O Facebook não foi suficiente para tanta indignação. Será o dia 12 de Março de 2011 o inicio do fim do reinado de Sócrates e o mote para melhores condições laborais? O Tempo o dirá...

sábado, março 12, 2011

Protesto Geração à Rasca

Foi com muita pena minha que não pude participar neste protesto.
Apesar de não ter um objectivo concreto e de não apresentar soluções objectivas para os problemas da nossa geração, foi a maior reunião de pessoas que alguma vez vi! Assisti em directo toda a tarde através da net e desejei imensas vezes poder estar lá.
Foi com enorme alegria e, até surpresa, que vi que este protesto se abriu às mais variadas gerações, religiões, partidos políticos e etnias. Vi de tudo um pouco! Jovens desempregados com quase 40 anos ainda a viverem em casa dos pais; pessoas que, apesar de terem um emprego estável e até bem remunerado, se juntaram a este protesto por solidariedade aos outros; pessoas mais velhas que foram ao protesto a pensar no futuro dos seus filhos e netos; estudantes a tentar lutar por terem um futuro emprego, enfim...acho que foi esta diversidade que deu ainda mais força a este protesto!

Se este protesto vai dar em alguma coisa? Isso não sei! Mas sei que ficar parado a pensar que não vai adiantar fazer este tipo de coisas e achar que as coisas nunca vão mudar, não adianta nada! É preciso agir! É preciso mais movimentos como estes!

Quero continuar a ter orgulho em ver esta união!

sábado, abril 25, 2009

35 Anos Depois do Adeus

E depois do Adeus, adeus à ditadura. A primavera marcelista tinha sido um simples sonho, nunca materializado.
A 25 de Abril de 74, um dia que seria pintado de vermelho e verde, saí à rua um novo símbolo, o cravo da liberdade.

Por volta da meia noite e vinte, da vila morena saí o sinal pela voz do Poeta da Liberdade.
41 anos de ditadura contra o pensamento e a razão estavam prestes a cair sob o signo de um novo Portugal, um Portugal mais justo, mais igual, mas acima de tudo mais livre.
Da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, sai Salgueiro Maia, o mais bravo dos capitães. Com ele partem 240 homem que se revêem naquele homem simples mas com uma aura magnifica. Partem para Lisboa, em direcção ao Terreiro do Paço, enfrentam a superioridade de armas e homens do regime, com nervos de aço. Cercam o Quartel do Carmo e destituem Marcelo Caetano das suas funções.
Nasce o Portugal Livre!




35 anos de liberdade, 35 anos desde que os capitães de Abril puseram fim ao estado a que isto tinha chegado.
Salgueiro Maia será sempre lembrado como a figura máxima deste movimento, ele que enfrentou na primeira linha o regime, disposto a sofrer todas as consequências na primeira pessoa. De um carácter e humanidade únicos, negou qualquer cargo político, argumentando que para se saber se há liberdade, não se podem tomar partidos, apenas manter-se neutral a qualquer influência política.

José Afonso será também sempre uma figura ligada à revolução e à luta contra o regime, ele que foi o Poeta da Liberdade, o senhor de uma inteligência poética assombrosa

Obrigado, aos dois e a todos os outros, mais ou menos famosos, que contribuíram para que o dia de hoje seja aquilo que é para mim.

Liberdade!


“Há 35 anos, o golpe de Estado acabou por abrir caminho a uma revolução. O povo juntou-se aos militares (…). A 25 de Abril, os militares criaram em Portugal a oportunidade da democracia, e os portugueses souberam aproveitá-la. E aos 240 homens da Escola Prática de Cavalaria que desceram a Lisboa na coluna de Salgueiro Maia devemos em boa parte o milagre de uma revolução pacífica, ‘dos cravos’.
(…) Eram 240. Todos quantos foram necessários para fazer cair um regime velho de duas gerações, tão velho que quase nem resistiu.
Eram os 240 de Salgueiro Maia. Apenas um punhado de soldados que há 35 anos saíram, madrugada alta, de Santarém para descerem à capital, ocuparem o Terreiro do Paço, subirem ao Carmo e aceitarem a rendição de Marcelo Caetano.
(…) Por vezes esquecido, chegou a ser ostracizado, humilhado mesmo, foi mal-amado pelos que não perdoaram a sua rectidão ou viram com maus olhos o facto de nunca ter pertencido a grupos, nem vergado a espinha, nem ter procurado honrarias. Salgueiro Maia pertence ao número daqueles que, por actos valorosos, se libertaram da lei da morte.
O comandante da coluna já desapareceu, mas a sua memória, não. O capitão que, na Ribeira das Naus e na Rua do Arsenal, protagonizou os momentos de maior tensão do golpe – quando teve de enfrentar, com armamento muito inferior, a coluna de tanques vinda de Cavalaria 7 – era um daqueles homens que só surgem de longe a longe, alguém de uma extrema simplicidade e rectidão, impoluto e rigoroso. É dele que retemos a mais luminosa imagem de um ‘capitão de Abril’, é dele que guardamos a mais límpida memória, nunca contaminada por qualquer sede de protagonismo ou de prolongamento da tutela militar sobre o poder civil.
À sua frieza e desassombrada coragem, à sua determinação sem falhas, devemos a vitória sem mácula e o facto de termos tido uma revolução de cravos, sem sangue.”

Retirei este texto de uma edição especial que o Público lançou sobre o 25 de Abril e militares que fizeram parte desta Revolução.
Apesar de não ser nascida em 1974 é com enorme orgulho que recordo todos os passos desta operação. Adorava ter vivido aquele dia, todas aquelas emoções.
Contam que durante o caminho do Terreiro do Paço para o Quartel do Carmo o povo acompanhou os militares, carros blindados e toda a maquinaria, com enorme euforia e alegria gritando “Liberdade!” e citando Salgueiro Maia “O ambiente que lá se viveu não tem descrição, pois foi de tal maneira belo que depois dele nada de mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa. (…) Nunca tinha visto o povo a manifestar-se assim. No Carmo, ao chegar, houve desde senhoras a abrir portas e janelas para colocar os homens nas posições dominantes sobre o quartel, até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o hino nacional.”
Sem dúvida que o Salgueiro Maia é uma das pessoas que eu mais admiro, um exemplo de conduta a seguir. É maioritariamente graças a ele que somos as pessoas que somos hoje! Que nós jovens podemos fazer o que fazemos. Ele deu-nos a Liberdade que, infelizmente, muitos de nós não sabem aproveitar da melhor maneira.
Tenho pena que a maioria dos jovens não dê valor à Revolução dos cravos (esta que abriu caminho às transições democráticas noutros países da Europa) e que muitas vezes, quando na rua lhes perguntam se sabem o que aconteceu no dia 25 de Abril eles apenas respondam que foi uma revolução qualquer.
Tenho imenso orgulho no 25 de Abril e em tudo o que ele representa e no que depender de mim vou transmitir este orgulho e explicar tudo o que se passou às futuras gerações!