Saio de Santa Apolónia e o céu saúda-me com um calor ao qual não estou habituado, nesta altura do ano. As pombas dizem "Olá" com aquele seu ar de quem espera algo em troca.
Apesar das nuvens volumosas e cinzentas, o chapéu-de-chuva viria a revelar-se apenas um fardo.
A cidade apresenta-se como é habitual. Turistas com canhões fotográficos em punho tentam captar a centelha lisboeta em cada traço de Alfama, sem saberem o que se iria passar daí a poucas horas.
Ouço uma rapariga, que caminhava a trás de mim, perguntar à amiga "A que horas começa?", "Às 3 na avenida da Liberdade". Sorrio. Serão mais duas entre os milhares, assim como eu. Não vou ser mais um com a típica conversa de café sobre o estado do país, daqueles que quando lhes compete fazer um pouco para o mudar deixam-se ficar no sofá ou em qualquer tasca a ver pela tv, apoiados por uma torrente de desculpas que faria qualquer tempestade parecer um choro de menino.
Passo pelo Chiado. Na perpendicular junto à Bertrand organiza-se mais uma feira de alfarrabistas, molestada apenas pelos raros aguaceiros que se fazem sentir.
Cruzo-me com pedintes, mendigos e velhos loucos, mas também com donos de audis, porsches e até lamborghinis de ultimo modelo. Engraçado, tão distantes uma da outra, mas nenhuma destas duas classes sociais se vai apresentar na manifestação.
Deixo para trás a estátua do príncipe da nossa poesia em direcção a um outro mais Real.
Enquanto passeio pelo bairro mais alto, olho para o chão e as frestas entre os paralelos mostram-me os artefactos de noites passadas onde os problemas do dia de hoje foram momentaneamente esquecidos.
Chego ao jardim e distribuo o peso da mochila por outras partes do corpo. As pombas olham-me agora com mais interesse, pretendem mostrar-me que merecem umas quantas migalhas bónus pela sua falsa amizade. É incrível o quanto as pombas e os seres humanos têm de comum.
Depois da merenda, vou andando vagarosamente para o ponto quente do mapa, qual campónio moderno vagueando por Lisboa. Ao passar pelo café Nicola apercebo-me de um grupo de neo-nazis, de t-shirts estampadas com o símbolo das SS, a fronha do Hitler ou do Rudolf Hess. Pobre mentecaptos. Felizmente não os voltarei a ver durante todo o dia, pois a manifestação será de todas as cores, literalmente.
A policia e a RTP concentram-se nas traseiras do teatro D.Maria II. Teriam eles previsto a dimensão da manifestação? Não creio, não haviam policia suficiente nem para 100 mil pessoas, quanto mais para o dobro. Grupos começam a viajar pela avenida a cima, em direcção ao São Jorge. Pelo caminho encontro caras conhecidas.
Quando chego já há vários milhares de pessoas, mas a quantidade de gente que chega parece não ter fim. Rapidamente deixa de se conseguir perceber onde realmente começa e onde acaba a manifestação.
Os motivos de luta são tão variados quanto os erros deste nosso país. Os estandartes fazem-se de todas as cores. São ocidentais, africanos, orientais, novos, muito novos e velhos, heterossexuais e homossexuais, sindicalistas e anarquistas. Não vejo qualquer bandeira de partidos e nem sinais da policia. Vejo sim muitos que vieram só para ver a "banda passar", o velho hábito de adoração, qual acidente na auto-estrada.
A marcha faz-se por entre frases que recordam o dia, que à quase 37 anos atrás derrubou o Estado Novo. 200 mil pessoas manifestam-se agora, com poucos cravos e com nenhum capitão, por um novo estado do país.
Como galvanizadores do Povo, os Homens da Luta, Vitorino, Rui Veloso, Fernando Tordo e outros vão fazendo-se ouvir através de megafones e colunas. Passando vagarosamente pela multidão, vão através da ironia e da canção relembrando o motivo pelo qual todos estamos ali. Já basta de tanta inevitável degradação de todos os sectores mais importantes do funcionamento da nossa sociedade!
2 horas depois chega-se ao Rossio e tanto a Praça da Figueira como a D. Pedro IV estão à pinha, bem como a Praça de Camões.
O Facebook não foi suficiente para tanta indignação. Será o dia 12 de Março de 2011 o inicio do fim do reinado de Sócrates e o mote para melhores condições laborais? O Tempo o dirá...
domingo, março 13, 2011
sábado, março 12, 2011
Protesto Geração à Rasca
Foi com muita pena minha que não pude participar neste protesto.
Apesar de não ter um objectivo concreto e de não apresentar soluções objectivas para os problemas da nossa geração, foi a maior reunião de pessoas que alguma vez vi! Assisti em directo toda a tarde através da net e desejei imensas vezes poder estar lá.
Foi com enorme alegria e, até surpresa, que vi que este protesto se abriu às mais variadas gerações, religiões, partidos políticos e etnias. Vi de tudo um pouco! Jovens desempregados com quase 40 anos ainda a viverem em casa dos pais; pessoas que, apesar de terem um emprego estável e até bem remunerado, se juntaram a este protesto por solidariedade aos outros; pessoas mais velhas que foram ao protesto a pensar no futuro dos seus filhos e netos; estudantes a tentar lutar por terem um futuro emprego, enfim...acho que foi esta diversidade que deu ainda mais força a este protesto!
Se este protesto vai dar em alguma coisa? Isso não sei! Mas sei que ficar parado a pensar que não vai adiantar fazer este tipo de coisas e achar que as coisas nunca vão mudar, não adianta nada! É preciso agir! É preciso mais movimentos como estes!
Quero continuar a ter orgulho em ver esta união!
Apesar de não ter um objectivo concreto e de não apresentar soluções objectivas para os problemas da nossa geração, foi a maior reunião de pessoas que alguma vez vi! Assisti em directo toda a tarde através da net e desejei imensas vezes poder estar lá.
Foi com enorme alegria e, até surpresa, que vi que este protesto se abriu às mais variadas gerações, religiões, partidos políticos e etnias. Vi de tudo um pouco! Jovens desempregados com quase 40 anos ainda a viverem em casa dos pais; pessoas que, apesar de terem um emprego estável e até bem remunerado, se juntaram a este protesto por solidariedade aos outros; pessoas mais velhas que foram ao protesto a pensar no futuro dos seus filhos e netos; estudantes a tentar lutar por terem um futuro emprego, enfim...acho que foi esta diversidade que deu ainda mais força a este protesto!
Se este protesto vai dar em alguma coisa? Isso não sei! Mas sei que ficar parado a pensar que não vai adiantar fazer este tipo de coisas e achar que as coisas nunca vão mudar, não adianta nada! É preciso agir! É preciso mais movimentos como estes!
Quero continuar a ter orgulho em ver esta união!
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Calças...
"Chapéus há muitos, seu palhaço!" e calças também! O pior é que como toda a peça de roupa, também as calças são geradas e geridas pelos caminhos da moda. Essa Moda com M bem grande que é ditada tanto pelo Povo como pelos grandes criadores; essa moda que é um pouco como a Democracia, uma ditadura da maioria.
Ora, o problema não é tanto o de encontrar calças, mas sim, encontrar calças que me sirvam como eu quero. E aqui é que o poder da Moda das massas se opõem a mim, visto que o que impera hoje em dia é o corte skinny, aquele que os neo-emos gostam muitos e que o pessoal que se acha muito na onda consome às carradas. Mas eu tenho um problema grande, é que eu gosto de me sentir livre nas minhas calças e não com um corpete em cada perna!
Longe vão os tempos em que o corte na moda era o baggy e eu podia entrar e comprar qualquer calça, sem ter de experimentar a loja toda...
Ora, o problema não é tanto o de encontrar calças, mas sim, encontrar calças que me sirvam como eu quero. E aqui é que o poder da Moda das massas se opõem a mim, visto que o que impera hoje em dia é o corte skinny, aquele que os neo-emos gostam muitos e que o pessoal que se acha muito na onda consome às carradas. Mas eu tenho um problema grande, é que eu gosto de me sentir livre nas minhas calças e não com um corpete em cada perna!
Longe vão os tempos em que o corte na moda era o baggy e eu podia entrar e comprar qualquer calça, sem ter de experimentar a loja toda...
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Do machismo ao feminismo
Ainda serão muitos, especialmente, muitas as pessoas que se recordam ainda do tempo da outra senhora. Um tempo, em que essa mesma senhora teria de pedir ao marido ou ao pai permissão para viajar, trabalhar, e se recuarmos ainda mais, até mesmo para sair de casa para fazer coisas tão mundanas como ir à mercearia da esquina.
Pois bem, parece que depois de milénios de machismo as coisas estão definitivamente a caminhar para o feminismo socialmente bem-visto, em contraste com machismo social que ainda se faz sentir em certas partes do globo.
Hoje em dia, é vê-las ter ladies nights onde indirectamente quem paga as bebidas delas é o sexo oposto (do qual só por acaso faço parte). É ver as diferenças de preços no vestuário. Uma simples t-shirt, sem qualquer estampado ou impressão custa mais 2 ou 3€ do que o equivalente feminino.
Mas para além destas e de todas as outras diferenças de produtos, que são alimentadas pelo facto das mulheres serem o sexo mais consumista, existem outras que eu não percebo e sinceramente irritam-me. Porque é que raio se criam competições e concursos só para raparigas? Alguém me explica?
É que isto hoje em dia passa muito bem; ninguém fala, ninguém questiona, mas e se fosse ao contrário? Um concurso só para rapazes? E eu estou a falar em concursos de áreas artísticas, onde ambos os géneros têm capacidades. Não sei porquê, mas algo me diz que um concurso só para o sexo masculino era assunto para jornal...
P.S.: Este post não segue o acordo ortográfico.
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